Os sobrenomes, ainda
Martha Medeiros
Uma vez, brincando, disse para um amigo que eu só trocaria de sobrenome se estivesse de casamento marcado com John Kennedy Jr. - e ainda assim, se ele insistisse muito e de joelhos. Meu amigo disse que faria o mesmo se caísse nas graças da excelentíssima esposa de John-John: passaria a assinar Mr. Bessette na mesma hora. Brincadeiras à parte, desde 2002, quando foi aprovado o Novo Código Civil, os maridos podem realmente adotar o sobrenome da mulher. O que temos a comemorar? A liberdade de escolha de ambos os sexos, o que não é pouca coisa. Mas considerar isso uma conquista do movimento feminista é um desvio de objetivo.
Já escrevi sobre este assunto mais de uma vez e volto a bater na mesma tecla: não faz o menor sentido uma mulher ou um homem abrirem mão da sua identidade para adotar a identidade de outra família. Alguns consideram isso uma homenagem; outros, uma prova de amor. Estão enganando a si mesmos. É apenas uma rendição ao convencionalismo. Uma insistência em manter a fórmula do "dois em um", totalmente obsoleta.
As pessoas, depois de vários anos juntas, começam a reclamar do tédio e do sentimento de anulação que o casamento traz. É como se elas tivessem deixado de ter vida própria. Muitas vezes, deixaram mesmo. Transformaram um compromisso que deveria ser leve e divertido numa tranqueira. Caem na cilada de acreditar que o amor exige entrega absoluta e confinamento, e esquecem de ser o que elas sempre foram. É preciso entender que só é feliz no casamento quem tem a liberdade de manifestar sua individualidade. Claro que não é a mudança de um sobrenome que vai impedir isso, mas também não colabora em nada. Lá no fundo (tão fundo que já é zona inconsciente), você sabe que mutilou seu nome e sua história. Abriu mão do que era genuinamente seu.
Não existe maior homenagem e maior prova de amor do que você se dispor a morar junto com uma pessoa e ter filhos com ela. É um voto de confiança e de otimismo, é um bonito projeto de vida em comum, mas jamais deve-se deixar de levar em conta que há dois indivíduos envolvidos nesta história, ambos com a mesma importância. Trocar de sobrenome para ser "um só" é uma atitude, quanto muito, romântica. Tão romântica quanto mandar flores, acender velas, fazer declarações de amor e viagens de lua-de-mel, essas coisas que até podem ser consideradas caretas - eu não acho - mas que ao menos permitem que você continue sendo quem sempre foi.
Domingo, 10 de abril de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.